O peixe vivia há anos no lado azul da água. Era uma zona respeitável, fresca, profunda e cheia daquele ar misterioso que os peixes adoram para parecer intelectuais. Ali todos nadavam devagar, com expressão séria, como se estivessem constantemente a reflectir sobre filosofias aquáticas.
Mas um dia o peixe cansou-se. «E se eu fosse ali ao verde?», disse em voz alta. Os outros olharam-no com escândalo. — Ao verde? Mas aquilo é claro demais. Vê-se tudo! — Precisamente, respondeu ele. — Estou farto de viver num sítio onde toda a gente parece uma sombra com barbatanas. E lá foi.
À medida que atravessava a fronteira invisível da água, o mundo mudava. O fundo dourado brilhava, a luz dançava por todo o lado e até as pedras pareciam mais felizes. O peixe sentiu-se imediatamente diferente. Mais leve. Mais aventureiro. Quase um turista.
No azul, ele era apenas «mais um peixe». No verde, começou a reparar que tinha escamas elegantes, uma cauda respeitável e até um certo perfil cinematográfico.
Claro que também havia inconvenientes. No verde toda a gente via toda a gente. Um camarão até comentou: — Olha quem decidiu aparecer! Tão escuro, pensava que tu eras um tronco a flutuar.
O peixe fingiu não ouvir e continuou o passeio com dignidade.
Ao final do dia regressou ao azul. Os outros peixes aproximaram-se logo: — Então? Como era?
O peixe ficou em silêncio uns segundos e respondeu: — Muito bonito... mas no verde não dá para fingir que estamos ocupados. ;-)