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Na falsidade do decorrer Anterior Seguinte

Na falsidade do decorrer

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  Experiências Experiments    Nikon D90  

Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver ...

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

O que falhei deveras não tem sperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,

Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim.

Poema «Na Noite Terrível» de Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, in "Poemas".

  Informação técnica

Fotografia N.º: 5705

Publicado em: 2026-07-12

Grupo: Experiências #Experiment

 Câmera: Nikon D90

 Abertura: f 6.3

 Distância focal: 50 mm (35mm equiv.: 75 mm)

 Velocidade do obturador: 3 sec

 Flash: Não Disparado No flash

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Retained-Images: Vendor
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  Comentários

Existem 9 pontos de vista. Quem será o próximo?
01
S
Steven
em 2026-07-12 13:33

The haunting blur of this shot captures the melancholy of the poem, looking like a fleeting memory or a forgotten dream slipping into the dark void of a sleepless night. A nice visual tribute to the ghosts of choices untaken, finding grace in the shadows of what might have been.

02
O
O Ultimo Fecha A Porta
em 2026-07-12 20:40

De factos, maus sentimentos neste poema.

03
E
Elisa Fardilha
em 2026-07-13 14:40

Apesar da profundidade sombria do poema, o que me encanta é a foto: belíssima e misteriosa. Ela parece guardar um segredo, lembrando que mesmo na falsidade do decorrer há instantes que florescem para quem sabe olhar.

Beijinho e ótima semana, Remus. 😘

04
E
Elisa Fardilha
em 2026-07-13 14:45

emendando:

... mesmo na falsidade há instantes....
em vez de:
mesmo na falsidade do decorrer...

😘😘

05
W
Willem
em 2026-07-13 18:07

A beautiful abstract image.

06
A
Ana Lúcia
em 2026-07-13 21:54

Como, mas como algo que parece desfocado, ou está desfocado ou não está, já nem sei, que se move num mundo paralelo ou mesmo neste pode ser tão belo?

07
H
Harry
em 2026-07-15 01:43

Minimal & mysterious

08
L
Lis
em 2026-07-15 12:02

Dois momentos aqui _ o desfalque que parece flor ou é só ilusão e o poema que além de longo é sombrio e desassossegado.

É Fernando Pessoa sendo Álvaro Campos, outra confusão ... rs
abraço, Remus Explique-se!

09
R
Remus
em 2026-08-10 09:06

Estou grato pelas vossas visitas e pelas vossas palavras! Saber que há alguém desse lado é reconfortante.

Steven, Willem and Harry: I am beyond grateful for your comments.
Lis: Não há nada a explicar. É só para ver e sentir. :-P